sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

abertura ecumênica no pontificado do papa francisco

A abertura ecumênica no pontificado de Francisco. Desafios e perspectivas. Entrevista especial com Walter Altmann

“Na revalorização do legado do Concílio Vaticano II, que parece ser outra marca distintiva do atual Papa, há a possibilidade de que o ecumenismo venha a recobrar força”, diz o teólogo.
Foto: http://bit.ly/18bzvir
“Entre os protestantes, que têm entre si uma diversidade bastante grande, predomina nitidamente uma impressão muito favorável doPapa Francisco, bem como dos gestos e posicionamentos que ele tem apresentado.
Isso se refere, em especial, à sua sensibilidade pastoral, sua preocupação com as pessoas pobres e em situações de vulnerabilidade, bem como sua humildade.” O comentário é deWalter Altmann, teólogo e professor de Teologia nas Faculdades EST, ao refletir sobre o pontificado do papa Francisco e as ações que conduzem as tradições cristãs ao ecumenismo.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail,Altmann ressalta o enfoque pastoral de Francisco na condução da Igreja e afirma que seu pontificado abrirá “novas possibilidades para as relações ecumênicas, pois frequentemente as divergências doutrinárias entre as igrejas têm um pano de fundo de contextos históricos, culturais e, não poucas vezes, também políticos, sociais e econômicos”.
Formado em Teologia pela Escola Superior de Teologia - EST, em São Leopoldo, Walter Altmann é doutor em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Atualmente leciona na EST.
Confira a entrevista.
Foto: http://bit.ly/IujPv4
IHU On-Line - Quais as peculiaridades entre as igrejas católica, ortodoxa e protestante? Diante das suas diferenças, como estão caminhando e podem caminhar em direção ao ecumenismo?
Walter Altmann - As designações “ortodoxa”, “católica”, “protestante”, também “pentecostal”, denotam uma particular ênfase característica para determinadas confissões religiosas. Assim, as igrejas ortodoxas realçam a continuidade desde os tempos da cristandade primitiva; a igreja católica romana, seu alcance universal; as protestantes, a fidelidade ao evangelho; as pentecostais, a ação permanente do Espírito Santo. Para o avanço do ecumenismo, é particularmente importante que as igrejas assumam que essas designações não são de forma alguma excludentes, mas, antes, complementares. Portanto, as diversas confissões cristãs refletem melhor a Igreja de Cristo(una, santa, católica, apostólica) quando se abrem à possibilidade de aprenderem umas das outras.
IHU On-Line - Há mais de dez anos a Igreja Católica e a Igreja de Confissão Luterana celebraram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. Em que consiste este acordo e como ele tem refletido no diálogo ecumênico entre ambas?
Walter Altmann – A assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, em Augsburgo, Alemanha, em 31 de outubro de 1999, é o exemplo mais marcante do avanço do diálogo ecumênico em questões doutrinais, pois foi precisamente a divergência em torno da doutrina da justificação que esteve no cerne da divisão da cristandade ocidental no século XVI.
Segundo Lutero, trata-se do artigo de fé com o qual a Igreja “permanece ou cai”. Com formulações e ênfases diferentes, católicos e luteranos coincidem hoje em que a salvação é concedida por graça de Deus e que as pessoas por Deus agraciadas são também vocacionadas a efetuar boas obras, ou seja, obras de amor ao próximo. As diferenças entre catolicismo e luteranismo que persistem hoje (particularmente na área da eclesiologia) são, por certo, importantes, mas de modo algum tão centrais quanto a doutrina da justificação. Se foi possível encontrar neste assunto uma convergência, de modo que tenha sido possível uma declaração conjunta, há de ser possível construir declarações conjuntas também em relação a outros tópicos de fé.
IHU On-Line - Como os protestantes têm interpretado o papado de Francisco em relação ao ecumenismo? Como o papa tem dado demonstração de caminhar nesta direção?
Walter Altmann - Entre os protestantes, que têm entre si uma diversidade bastante grande, predomina nitidamente uma impressão muito favorável do Papa Francisco, bem como dos gestos e posicionamentos que ele tem apresentado. Isso se refere, em especial, à sua sensibilidade pastoral, sua preocupação com as pessoas pobres e em situações de vulnerabilidade, bem como sua humildade. Apreciam também os passos que está tomando no sentido de reforma de estruturas da Igreja Católica e ênfase na descentralização e na colegialidade. O Papa Francisco também tem afirmado o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Contudo, até o presente momento, esta não tem sido a marca mais distintiva de seu pontificado, provavelmente pela magnitude da tarefa que se tem proposto no interior da Igreja Católica. Na revalorização do legado do Concílio Vaticano II, que parece ser outra marca distintiva do atual Papa, há a possibilidade de que o ecumenismo venha a recobrar força.
IHU On-Line - O que diferencia e aproxima o papado de Francisco com o de Bento XVI em relação a esta temática?
Walter Altmann - Bento XVI era bastante zeloso em relação a questões doutrinárias, inclusive disciplinando teólogos e teólogas que lhe pareciam incorrer em desvios doutrinários. O Papa Francisco já indicou com clareza que enfocará essas questões a partir de uma perspectiva mais pastoral. Isso, sem dúvida, abre novas possibilidades para as relações ecumênicas, pois frequentemente as divergências doutrinárias entre as igrejas têm um pano de fundo de contextos históricos, culturais e, não poucas vezes, também políticos, sociais e econômicos. O reconhecimento dessa realidade possibilita reinterpretações que realcem a mensagem originária que é comum às diferentes tradições confessionais e, assim, também lhe conferem uma nova atualidade.
IHU On-Line - Entre as igrejas cristãs, quais sinalizam mais abertura em torno do diálogo ecumênico?
Walter Altmann - Não é possível especificar e quantificar a abertura em relação ao diálogo ecumênico por confissões, pois mesmo naquelas igrejas, digamos, do ramo protestante, mais comprometidas com o ecumenismo, há também forças ou movimentos internos que são mais reticentes ou mesmo antagônicos ao movimento ecumênico. Em algumas igrejas nacionais, essa tendência tem até se tornado predominante. Também na Igreja Católica e nas igrejas ortodoxas há setores e movimentos avessos ao ecumenismo, embora o posicionamento oficial das igrejas lhe seja favorável.
Pode-se, porém, dizer que, entre as igrejas protestantes, as ditas “históricas”, como as luteranas, as reformadas (calvinistas) e as metodistas têm tido um protagonismo mais saliente no ecumenismo moderno. O mesmo vale para as igrejas anglicanas.
Já as igrejas pentecostais têm colocado ênfase na expansão missionária, sendo o diálogo e a cooperação com outras igrejas colocados em segundo plano ou até mesmo rechaçados como contrários ao evangelho. Contudo, a crescente fragmentação do espectro pentecostal tem suscitado, mais e mais, uma preocupação com a “unidade”, que em verdade é também o âmago do ecumenismo.
IHU On-Line - Com o papado de Francisco, que ações vislumbra em direção ao movimento ecumênico?
Walter Altmann - O Papa tem recebido amigável e fraternalmente líderes de outras igrejas e religiões. Contudo, fazer neste momento previsões no sentido da pergunta seria mera especulação. Posso expressar algumas esperanças. Seria, por exemplo, um gesto de grande repercussão ecumênica se o Papa Francisco se dispusesse também a visitar o Conselho Mundial de Igrejas - CMI em sua sede, Genebra, ou o Patriarca Ecumênico em Constantinopla, Istambul. Igualmente, uma visita a Jerusalém, combinada com um significativo encontro de lideranças ecumênicas, teria um alto significado.
Nutro também a esperança de que os resultados de diálogos bilaterais e multilaterais, que têm chegado a notáveis convergências e consensos em muitos assuntos controversos, possam ser levados criativamente para a prática. Almejo que a hospitalidade eucarística possa ser praticada em determinadas circunstâncias, por exemplo, em encontros ecumênicos. Uma regulamentação mais flexível e pastoral em relação a matrimônios mistos também seria desejável.
IHU On-Line - Qual deve ser a participação das igrejas cristãs em temas como a superação da pobreza e a garantia dos direitos humanos? De que maneira e através de quais ações as igrejas podem participar desses debates?
Walter Altmann - Esta é uma área em que tradicionalmente tem havido entre as igrejas uma acentuada cooperação. A eficácia da “voz profética” das igrejas aumenta na medida em que elas podem assumir em conjunto temas como os mencionados, da superação da pobreza e da garantia dos direitos humanos. O Conselho Mundial de Igrejas, em sua recente assembleia, em Busan, Coreia do Sul, abordou de forma especial assuntos relacionados à justiça e à paz.
Já a Federação Luterana Mundial - FLM realizará sua próxima assembleia em 2017 (nos 500 anos da Reforma) emWindhoek, Namíbia, enfocando em seu tema e subtemas que nem a salvação, nem o ser humano, nem a criação podem ser objetos de comercialização (not for sale). Nessas áreas temos hoje um grande consenso entre as diferentes confissões cristãs.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Walter Altmann - Faço votos de que o Papa Francisco tenha pleno êxito em seus empreendimentos, que as reformas sejam eficazes, e, por conseguinte, a credibilidade da Igreja Católica se fortaleça, que seus gestos de dedicação aos pobres inspirem o povo e autoridades políticas ao redor do mundo, que ele persevere corajosamente no caminho que traçou e que os laços de fraternidade com outras igrejas cristãs sejam estreitados.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

retomados os contatos entre o vaticano e a universidade sunita al-azhar no cairo

Retomados os contactos entre a Santa Sé e a Universidade al-Azhar no Cairo



O secretário do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Padre Miguel Angel Ayuso Guixot, acompanhado do núncio apostólico no Egito, D. Jean-Paul Gobel, visitou a Universidade al-Azhar no Cairo.
O prelado foi recebido pelo vice do Grão Imã, Abbas Shouman, pelo conselheiro para o diálogo, Mahmoud Azab, e por uma qualificada representação, constituída por uma dezena de altas personalidades.

Padre Ayuso foi portador de uma mensagem escrita, assinada pelo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Cardeal Jean-Louis Tauran.
Neste encontro, de 45 minutos, muito cordial e frutuoso, afirmou-se a disponibilidade a retomar no futuro o diálogo e a colaboração

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

descobertas arquelogicas sobre buda no nepal

Buda ficou mais velho

Descoberta arqueológica na cidade onde nasceu Buda, no Nepal, antecipa em 300 anos a data de seu nascimento e pode mudar a história do budismo

João Loes
Quem visitou o templo de Maya Devi, na cidade de Lumbini, no Nepal, entre os meses de janeiro e fevereiro nos últimos três anos viu mais do que se costuma ver neste que é um dos destinos mais visitados por fiéis do budismo no mundo. Nesse período, em meio ao sítio arqueológico, que é a principal atração do templo e guarda registros dos primórdios da religião, um time de 40 arqueólogos trabalhou para descobrir o que o espaço ainda tinha a revelar. As esperanças eram grandes. Segundo a tradição, foi em Maya Devi, reconhecido em 1997 como patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que Sidarta Gautama, o Buda, nasceu. “O que acabamos encontrando foi o templo budista mais antigo de que se tem notícia”, anunciou o arqueólogo inglês Robin Coningham, da Universidade de Durham, que liderou os trabalhos com apoio da National Geographic Society, dos governos japonês e nepalês e da própria Unesco. “Segundo cálculos feitos na madeira de sua estrutura, ele data do século 6 a.C.” Os resultados foram publicados no jornal acadêmico de arqueologia “Antiquity”, um dos mais respeitados do mundo.
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Até o achado da equipe de Coning-ham, supunha-se, com base em levantamentos arqueológicos e textos e relatos que sobreviveram ao tempo, que Gautama tivesse nascido entre os séculos 3 e 4 a.C. Agora, a data precisa retroagir em até 300 anos. “A descoberta provoca um recomeço de tudo o que sabemos sobre o início da religião budista”, aposta o arqueólogo, que fez as datações do material encontrado com técnicas consagradas como a fosforescência e o decaimento de carbono. Nem todos, porém, concordam com essa conclusão de Coning-ham. Para Frank Usarski, coordenador da pós-graduação em ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), embora Buda seja mais velho do que se pensava, Lumbini pouco mudou entre os séculos 3 a.C. e 6 a.C, ou seja, o contexto histórico era semelhante. “A região passava por uma profunda, mas perene mudança socioeconômica que se manifesta com força semelhante tanto na data antiga quanto na nova”, argumenta ele, que também é autor do livro “O budismo e as outras” (Ed. Ideias & Letras, 2009).
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PEREGRINAÇÃO
Monges no sítio arqueológico onde foram encontrados
restos do templo mais antigo do mundo
Usarski defende que o maior impacto da descoberta, se ela for confirmada pela comunidade científica, é na credibilidade dos primeiros escritos da religião, que datam do século 1 a.C. Em registros antigos, a distância temporal entre a produção de um documento e os fatos que ele narra costuma servir de termômetro para sua credibilidade: quanto mais próximo, mais fiel; quanto mais distante, menos fiel. A lógica é que, até a produção do documento, a história é repassada oralmente e está sujeita à subjetividade de quem faz a narração. “Se o Buda nasceu 300 anos antes do que se imaginava, os relatos escritos de sua história passam a estar 300 anos mais distantes dos fatos que eles narram”, afirma Usarski.
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TENAZ
Robin Coningham liderou equipe de 40 arqueólogos durante os
rigorosos invernos do Nepal para fazer a descoberta
Ainda não é possível mensurar como a descoberta do mais antigo templo budista do mundo pode afetar o entendimento que se tem da religião atualmente. “Se é que o templo é budista”, diz Rodrigo Pereira da Silva, especialista em arqueologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém e professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). A afirmação de Silva faz eco às dúvidas que outros especialistas pelo mundo têm externado sobre a descoberta. Sabe-se, por exemplo, que na região de Lumbini templos nos moldes do que foi encontrado eram muito comuns e não necessariamente budistas. “Algum tipo de identificação se faz necessária para chegar a esse tipo de conclusão”, diz Silva. A única certeza é que o trabalho de Coningham em Lumbini, tido como rigoroso por seus colegas de arqueologia, é mais uma peça nesse gigante quebra-cabeça.